Jango, documentário de Sílvio Tendler, é o programa da Mostra Relâmpago dessa quarta-feira, dia 11 de novembro.

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Jango é um relato da vida política brasileira dos anos 60, tendo como fio condutor a biografia do presidente João Goulart. Sua ascensão e queda até a morte no exílio são reconstituídas a partir de material de arquivo e entrevistas com personalidades como o ministro Afonso Arinos de Melo Franco, o general Antonio Carlos Muricy, Leonel Brizola, Celso Furtado e Frei Betto, entre outros.

A sessão acontece no auditório do Cemuni IV às 12h.  Leia abaixo crítica do filme.

Crítica: “O estadista sem poder”

por Lúcio Flávio – via Prog. Brasil.

João Goulart morreu no exílio em 1976, tendo sido o único presidente brasileiro a chegar ao fim da vida nessas condições. Tal qual os estranhos personagens do escritor Albert Camus, perambulou pelos tortuosos caminhos do destino alimentando sonhos e esperanças que o retratassem com um passado marcado por equívocos e, em seu caso, injustiças históricas. Justiça essa, reparada, em parte, pelo ótimo documentário Jango, de Silvio Tendler. Precioso registro de nosso recente passado político, o filme – realizado em 1984, no calor do movimento pelas eleições diretas para a presidência da república – foi visto por mais de um milhão de pessoas, o maior público no gênero da cinematografia nacional.

Aproveitando momento importante do país, em que a democracia escancarava sua cara aos olhos de uma sociedade oprimida por mais de 20 anos de repressão ideológica, Jango também é uma espécie de mea-culpa com uma das figuras políticas mais emblemáticas do Brasil. Sua conturbada escalada política foi pontuada pelos sombrios ventos da época que carregavam a confusa dicotomia pregada pela vigente Guerra Fria, pelos flamejantes ideais socialistas e utopia populista que cercava, em menor ou maior grau, os governantes latino-americanos. Com João Goulart não seria diferente.

Conduzido pela melancólica trilha sonora de Wagner Tiso e Milton Nascimento e pela narração de José Wilker, o documentário alia leveza narrativa ao lado de vasto material de arquivo e entrevistas raras de personagens que viveram in loco e foram testemunhas cruciais daqueles conturbados anos. O rol perfila nomes como da filha de João Goulart, Denize Goulart, passando pelo líder comunista Gregório Bezerra, os jornalistas Raul Ryff e Marcos Sá Corrêa – o último com revelações surpreendentes da famigerada operação Brother Sam, que oficializava o envolvimento dos Estados Unidos no Golpe de 64 -, além dos ex-governadores Magalhães Pinto e Leonel Brizola – este em emocionante depoimento.

O primoroso texto de Maurício Dias desmente quaisquer riscos do uso da figura de Jango como mero pretexto para o discurso enaltecedor da democracia do diretor e produtor Silvio Tendler. Rico em material iconográfico e minucioso na pesquisa histórica, o longa esmiúça os bastidores da política nacional e estrangeira esclarecendo, passagens outrora nebulosas, como articulações que levaram a criação da chapa Jan-Jan (Jânio e Jango) ou o confuso e turbulento périplo de Goulart pela presidência até sua queda, em 1964. À luz desses acontecimentos, desfilam figuras marcantes da época como a do ditador chinês Mao Tsé-tung, do presidente americano John Kennedy e do guerrilheiro Ernesto “Che” Guevara, além de personalidades nacionais como Adhemar de Barros, Carlos Lacerda e Tancredo Neves.

Preciso e direto em sua abordagem, o roteiro, ora poético, em sua maioria objetivo, serve de esteio para as colagens visuais do cineasta, um artista que aprendeu a valorizar a história brasileira e seus personagens de maneira simples e cativante. De Glauber Rocha a Milton Santos, de JK à Jango, uma espécie de minotauro preso nos labirintos de nosso passado mais recôndito.

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