O segundo Sessão Grav do chileno Raoul Ruiz exibiu dois filmes do diretor.

O primeiro foi o curta-metragem Colóquio dos Cães, de 1977. Logo depois teve a exibição do longa-metragem A hipótese do quadro roubado, produzido dois anos depois, que teve a resenha escrita por Carolina Ruas.

O escândalo familiar de um dos quadros analisados no filme

O roubo da consciência

Em uma rua inexpressiva, provavelmente um subúrbio francês, se ergue uma mansão enevoada ao som de uma ópera cantada com a dramaticidade necessária para nos introduzir a um clima de suspense e a nos fazer esperar os contornos de uma grande tragédia. A tragédia, Raoul Ruiz faz questão de anunciar em versos de Victo Hugo: “a consciência humana está morta”.

É assim que o diretor chileno introduz A hipótese do quadro roubado. Dentro da mansão, Ruiz vai levar o espectador a um ambiente tão enevoado quanto os arredores da mansão.  O colecionador se movimenta na sua mansão inexpressiva apresentando ao espectador uma série de quadros de um pintor impressionista, tentando desenhar um fio condutor que narra um escândalo, escondido pelas telas.

Seis obras – sete, não fosse a falta de uma – completam um ciclo de elementos que escondem a polêmica.  A princípio parece o desenrolar de um grande mistério, um thriller existencial, um caso de roubo, uma seita secreta. Entretanto, não é a toa que Ruiz, aparentemente, deixa as pontas soltas e nos faz duvidar de tudo que é dito.  A mansão, os quadros, a ópera, a neblina, todos os elementos estão dispostos de uma forma que exalam uma sensação de entorpecimento, como se o colecionador estivesse em um limbo artístico e, cinematográfico.

Uma das pinturas que cercam o mistério no filme

Uma das pinturas que cercam o mistério no filme

A hipótese do quadro roubado, mais que tudo, nos leva às fronteiras do cinema. Primeiro nos deixa aos cuidados de um narrador, que propõe anedotas artísticas e filosóficas e nos conduz a experiência do personagem-colecionador, que orienta seu aprendiz invisível – o espectador – suas análises e angústias acerca das obras. Por vezes, a fala de ambos se encontra e, por vezes, o colecionador parece ainda mais sozinho, e mais mergulhado em suas próprias reflexões.

Conforme o colecionador desenvolve sua teoria, os personagens se movimentam e reencenam a série de quadros que podem ter um significado maior; Os tableux-vivant estão espalhados por toda a casa, como bonecos de cera a teatralizar os resquícios de algum mistério que o artista inscreveu nas obras. Ou ainda, podem estar simplesmente servindo à crença do seu locutor, redesenhando todas as cenas em um jogo de interpretação.

Os quadros, entretanto, não são o foco principal de Ruiz. E isso vem à tona no momento em que se observa um filme que se diz sobre a pintura, roubar a sua maior característica: a cor. Em preto e branco, Ruiz sugere ao espectador embarcar em um jogo de percepção que ele arrisca fazer e desfazer dentro da narrativa cinematográfica. Levando o espectador a um estado intermediário entre a realidade e a fantasia – ou ao devaneio, alguns diriam – ele apresenta um filme duvidoso, um cinema onde bases sólidas não existem. O que existe é a consciência.

FICHA TÉCNICA

A hipótese do quadro roubado (Drama, 63min, França, 1979)

Título original: L’Hypothèse du tableau volé

Direção: Raoul Ruiz

Roteiro: Raoul Ruiz e Pierre Klossowski

Elenco: Jean Rougeul (colecionador)

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