As crianças são tudo menos inocentes

As crianças são tudo menos inocentes

O sorteio das melequinhas este mês escolheu o diretor chileno Raoul Ruiz.

O primeiro filme exibido em Sessão Grav foi Crônica da Inocência.

E foi o nosso digníssimo professor orientador Alexandre Curtiss o escolhido para escrever a crítica da semana.


O ORDINÁRIO SURREAL

Para assistir Crônica da Inocência o espectador deve estar preparado para uma desconcertante experiência cinematográfica. O cinema tardio de Raoul Ruiz – diretor com mais de 100 trabalhos para cinema e televisão – faz do rigor e da precisão expressiva instrumentos narrativos privilegiados. Por trajetos aparentemente “clássicos”, se ocupa de fabricar complexas histórias que desafiam lógicas e normalidades. Disso resulta um cinema de “sabor” raro.

Crônica da Inocência tem muitos níveis narrativos e se presta a variadas experiências de espectatorialidade. Parece não trabalhar com a possibilidade da indiferença. Desafia de modo ambíguo, e até exasperante, convenções e expectativas. É cinema em pleno domínio de seus poderes, e ciente minucioso disso.

A história poderia ter uma resenha banal. Camille, ao fazer 9 anos, começa a ter comportamento estranho. Passa a tratar a mãe, Ariane, como estranha e demonstra pertencer a outra realidade, outra família. É o início de um suspense onde não havia indícios, de reviravoltas que percebem claramente o momento de acomodação dos espectadores. Um filme que combate expectativas.

Raoul Ruiz usa diversos recursos da tradição cinematográfica para exibir os delírios de Camille. Porém os carrega de ambiguidade. Então, de repente, eles deixam de ser simplesmente fantasias e ganham concretude. Mesmo assim, distintas do que aparentam ser.

Na mesma sintonia, a representação “realista”, “clássica”, da história passa por uma revisão que a subverte, mantendo seus próprios e tradicionais parâmetros. Ao trabalhar assim, Raoul Ruiz parece buscar uma síntese que é o sonho de boa parte dos artistas mais instigantes: estabelecer diálogo tanto com o espectador, quanto com o cinema – “intertextualmente” -, sem perder o rigor, o compromisso com a produção de uma provocação difícil de esquecer e de absorver. Pura potência.

Crônica da Inocência não é um filme óbvio. Baseado em obra literária, mais parece uma retomada do projeto surrealista – um Buñuel no suspense -, mas sem repeti-lo, ou a ele se render oportunisticamente. E ainda por cima “o trai”, num desfecho ordinário em sua genialidade. Humano, demasiado humano. Um marco.

FICHA TÉCNICA

Crônica da Inocência (Drama, 95min, França, 2000)

Título original: Comédie de l’ Innocence

Direção: Raoul Ruiz

Roteiro: Françoise Dumas e Raoul Ruiz. Adaptado de “Il figlio di due madri” – de Massimo Bontempelli.

Elenco: Isabelle Huppert (Ariane); Jeanne Balibar (Isabella); Nils Hugon (Camille); Charles Berling (Serge).

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