O segundo filme do diretor do mês Karim Aïnouz, O céu de Suely, teve resenha crítica escrita por Rafael Abreu.

“O céu de Suely” é um filme que tem pouco enredo, a princípio: Hermila, recém-saída de São Paulo, retorna a Iguatu, cidadezinha pobre e pacata do nordeste, onde reencontra as pessoas e a rotina que deixou para trás por paixão a Mateus, pai de seu filho. Mas essa falta de enredo aparente faz sentido, considerando que é na simplicidade e nos personagens que o diretor encontra o clima e o ouro do longa.

Perdida entre o ritmo vagaroso e familiar de Iguatu e a espera por Mateus, o que se vê em Hermila e o ambiente que a envolve é deslocamento. Não só como qualidade da personagem, mas como sua atividade. O movimento que Hermila faz, mesmo que mínimo, é de fuga. Capturada nos planos abertos em que o céu (que não é seu) toma a maior parte do quadro, a imagem da personagem encolhida num canto, tem-se a impressão de uma claustrofobia às avessas: o céu, como o próprio diretor comentou, quanto a esse aspecto, toma a forma de um descampado que tanto liberta quando intimida.

Mas não é só na sensibilidade Hermila que o filme se sustenta. Há o sertão destacado da tradição árida e sofrida, menos deserto, mais urbano e globalizado, há o elenco matriarcal de que fazem parte sua tia, sua vó e Georgina (uma “rapariga”) e há João, de fato a única coisa que poderia impedir que Suely surgisse à procura deum céu diferente, mais longe, todos interpretados com bastante delicadeza. Tendo em vista que o roteiro não fornece muita tensão dramática nos diálogos em si, a própria preparação dos atores já se preocupava em ser essencialmente física, focada na linguagem corporal, estabelecendo  uma atuação silenciosa que permeia o filme inteiro.

Quando a protagonista pergunta a uma balconista na rodoviária, qual é a passagem que ela tem pra mais longe, para ir adaptando o lugar ideal ao preço mais baixo da passagem, o tema do filme fica evidente. Longe é Iguatu, longe é São Paulo, longe são as imagens em super 8 que abrem o filme, nostálgicas, saudosas. O foco da narrativa é tanto a distância quanto sua travessia, por mais disfarçadas que sejam.

FICHA TÉCNICA:

O Céu de Suely (Drama, 01h28, Brasil, 2006)

Direção: Karim Aïnouz

Roteiro: Maurício Zacharias, Felipe Bragança e Karim Aïnouz, baseado em argumento de Maurício Zacharias e Karim Aïnouz

Produção: Walter Salles, Maurício Andrade Ramos, Hengameh Panahi, Thomas Habërle e Peter Rommel

Música: Berna Ceppas e Kamal Kassin

Fotografia: Walter Carvalho

Elenco: Hermila Guedes (Hermila); Georgina Castro (Georgina); Maria Menezes (Maria); João Miguel (João); Mateus Alves (Mateuzinho); Zezita Matos (Zezita Marcélia Cartaxo)

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Uma resposta »

  1. Inã Cândido disse:

    Muito legal sua resenha. Está ajudando eu a criar a minha sobre esse interessante filme.

    Um grande abraço.

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