Como de costume, toda sessão Grav leva um membro do grupo a escrever uma pequena crítica do filme a ser exibido.

Madame Satã, de Karim Aïnouz, ficou a cargo de Honório Filho.

Veja o que ele escreveu.

Desde o primeiro segundo, quando os créditos com letras brilhantes feitas de lantejoulas aparecem, a personalidade exuberante de João Francisco dos Santos transparece. A mescla de bestialidade e sexualidade, presentes de maneira marcante na personalidade e no cotidiano dele, são, basicamente, a introdução a esse indivíduo. E quando os créditos finais aparecem, a persona da Madame Satã é fluentemente identificada e compreendida por nós. Principalmente pela facilidade com que ela é representada pelo ator Lázaro Ramos, que apresenta o carisma e estabelece a convicção com que João tomava suas atitudes e, dessa forma, nos faz simpatizar por ele, mesmo quando ele se mostrava irracional.

A família disfuncional em que vive João torna-se, talvez, o principal elo entre ele o público. Assumindo o papel de matriarca, ele ao mesmo tempo que serve de conselheiro para a prostituta Laurita, interpretada por Marcélia Cartaxo, também cuida da filha dela, quase assumindo o papel de mãe da criança. E ainda se vê responsável pelo espevitado Tabu, que é maravilhosamente interpretado por Flávio Bauraqui, o grande destaque do ótimo elenco coadjuvante, mostrando-se capaz de transmitir alma de “moça na puberdade” do personagem. Estabelecendo-se como chefe de família desses três indivíduos negligenciados, Lázaro Ramos ainda soma a essa relação sentimentos de carinho e rigidez para com eles, como se João também cumprisse o papel de um pai rigoroso.

Filho de Iansã e Ogum e afilhado de Josephine Baker

Filho de Iansã e Ogum e afilhado de Josephine Baker

Mas o aspecto mais marcante é a sexualidade latente e sem pudores exposta no filme. O diretor Karim Aïnouz muitas vezes aproxima a câmera dos personagens como se fosse um animal identificando o outro pelo cheiro ou apenas espia, atrás de objetos e pessoas, a ação. As cenas de sexo de João com outros homens são de uma sexualidade bruta, evidenciando a natureza agressiva do personagem. Esse sentimento se estende a caracterização perfeita dos becos e ruelas da Lapa que, de certa forma, também contribuem para a formação dele. No entanto, a falta de um arco dramático faz com que o filme seja questionado como um todo, pois ele se passa sem ter um cena de catarse. E o que seria o clímax final é construído somente para que o personagem principal grite uma constatação que público já fez desde o início, de que a bestialidade e a sexualidade é que fazem dele a Madame Satã.

FICHA TÉCNICA

Madame Satã (Drama, 01h45, Brasil, 2002)

Direção: Karim Aïnouz

Roteiro: Karim Aïnouz

Produção: Isabel Diegues, Maurício Andrade Ramos e Walter Salles

Fotografia: Walter Carvalho

Elenco: Lázaro Ramos (João Francisco dos Santos / Madame Satã); Marcélia Cartaxo (Laurita); Flávio Bauraqui (Tabu); Felippe Marques (Renatinho); Emiliano Queiroz (Amador); Renata Sorrah (Vitória dos Anjos); Floriano Peixoto (Gregório)

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