Essa é uma versão cheia de cortes do artigo Através da sala escura: uma aproximação entre a sala de cinema e o lugar do VJing, de Gabriel Menotti, escrito entre 2006/2007. Esse artigo, por sua vez, teve origem na tese de mestrado dele, disponível aqui. É pra colocar mais questões sobre a projeção digital!

São inúmeros os relatos que falam da autonomia da projeção nos primórdios do cinema. O fato de os filmes serem vendidos pelos produtores, ao invés de alugados, mostra como o foco da indústria no início do século passado era bem diferente do de hoje em dia. O moviegoing se configurava mais como um ir ao cinema do que um ir ver um filme – mesmo porque o “filme” se realizava na hora, como pura experiência cinematográfica.

O dono de um estabelecimento tinha completo controle editorial sobre o que exibir. O operador podia usar recursos de iluminação e regular a velocidade do projetor para dar ou corrigir o sentido das imagens. A música, executada em sincronia com o filme, não pertencia à obra em si, mas sim era aplicada sobre sua fruição. Dessa maneira, por mais que um filme se repetisse, ele nunca seria visto da mesma forma.

Em 1963, Stan Brackage ainda falava na projeção como performance, isto é, prática criativa. Mas a marcha da indústria solapou essa capacidade, ao instituir uma dinâmica comodificada de consumo, conforme padronizações técnicas (e de linguagem) se tornavam cada vez mais necessárias para garantir a penetração de diferentes obras em diferentes espaços de exibição (e, hoje em dia, sua circulação por um amplo espectro midiático).

(…)

Essa situação está sendo posta em cheque pela inserção das novas tecnologias nos expedientes cinematográficos tradicionais. Estamos a um passo da metamorfose do cinema em um meio inteiramente digital. Tudo o que resta para completar esse processo é a transição dos mecanismos de distribuição e exibição. Mas a indústria se opõe, e escolheu justamente as salas de projeção como sua última trincheira.

Ao contrário do que é publicizado, os motivos para essa relutância não são imediatamente estéticos. Já estão disponíveis no mercado tecnologias de projeção digital capazes de construir imagens tão definidas quanto um dispositivo 35 mm. As razões de a indústria não adotar imediatamente essas tecnologias, que dispensariam a copiagem dos filmes em película, provocando ganhos de produtividade em todas as instâncias da cadeira cinematográfica, são operacionais.

Produtores, distribuidores e exibidores se enrolam para definir quais os padrões mais adequados, vantajosos para todas as partes. Esse processo é encabeçado pelo Digital Cinema Initiative (DCI), consórcio formado pelos sete maiores estúdios de Hollywood. Por trás dele, está a resistência da indústria em ceder espaço no ponto em torno do qual gira toda a economia do cinema; de onde essa economia pode ser controlada: suas dinâmicas de consumo.

O principal interesse dos agentes que dominam o mercado é manter sua posição privilegiada. A digitalização representa uma séria ameaça a esse desenho, uma vez que acarretaria o completo sucateamento do parque tecnológico vigente, substituindo-o por uma estrutura mais aberta, dinâmica e flexível.

Digitalizado, o filme é uma quantidade de bytes, matriz de altíssima qualidade, pronta para se desviar dos canais autorizados e escoar pelo mercado informal. Digitalizada, a sala de projeção é pouco diferente de um home theater conectado à Internet. Ela se torna tão acessível para o espectador quanto uma câmera de gravação MiniDV ou um software de edição de vídeo.

Dentro desse quadro, o que parece preocupar a indústria, além da proliferação descontrolada de cópias ilegais de filmes ainda não lançados, são os efeitos que a vulgarização dos espaços de exibição poderia causar no moviegoing.

Por muito tempo, o moviegoing foi a única dinâmica de consumo audiovisual possível. Hoje, muito embora conviva com várias outras – filmes podem ser vistos em canais de TV, alugados em DVD, baixados da Internet –, ele mantém sua deferência.

De forma semelhante, mesmo com a disseminação de procedimentos mais adequados às dinâmicas de comunicação digitais que predominam em nossa sociedade, a sala de projeção permanece preponderante no circuito cinematográfico. Ela ainda é “o primeiro e principal ponto de vendas” de filmes, de tal modo que o circuito continua se organizando ao seu redor. Apenas de uma outra maneira.

Se antes a sala de projeção era o único local onde a indústria obtinha retorno financeiro, hoje a venda de home vídeo e os licenciamentos de imagem representam aos produtores um lucro ligeiramente superior do que os dividendos da bilheteria. Da mesma forma, os próprios exibidores já ganham mais vendendo concessões (pipoca, refrigerante e demais comestíveis) do que ingressos.

Com isso, mais do que nunca, a experiência cinematográfica fica refém de uma economia de resultados. A projeção do filme acaba se tornando uma espécie de espetáculo de marketing para uma série de mercados acessórios, e a sala de cinema passa a ser nada mais do que uma vitrine, em torno da qual todas as outras mídias se colocam (…).

Ironicamente, dentro da presente estrutura, as potências particulares de cada dinâmica de consumo são anuladas. Uma obra precisa ser portável o bastante para atravessar diversas mídias com o mínimo de adaptações, sem perder o seu apelo comercial. Para isso, ela não pode se valer de características específicas de qualquer meio – nem mesmo do original, a sala de projeção.

Com a comodificação do moviegoing, restringem-se todas as formas de espectação cinematográfica, inclusive o próprio. O controle das salas de projeção possibilita à indústria determinar econômica e esteticamente a recepção do filme – e, em última instância, aspectos relativos à sua produção e linguagem.

Se a digitalização assusta, é porque permite diluir esse controle, e flexibilizar as dinâmicas de consumo a tal ponto que seja impossível utilizá-las como cancela para a produção. Cada filme poderia buscar as formas de exibição que fossem mais adequadas à sua proposta específica, e nem por isso deixar de ser cinema.

Mesmo dentro da indústria, timidamente, isso já está acontecendo. Tanto de maneira mais branda (como em Road to Guantanamo, último filme de Michael Winterbottom, lançado simultaneamente para salas de projeção, televisão e Internet), quanto em propostas mais radicais (como a série Tulse Luper Suitcases, que vem sendo desenvolvida por Peter Greenaway, de maneira articulada e complementar, em diversas mídias).

Nesse sentido, De Luca sugere que as salas de cinema digital adotarão uma arquitetura fluida, apta a exibir diferentes produtos, como jogos de futebol e shows de rock. Mas isso não passa de perfumaria. É ingênuo pensar que a mudança provocada pela digitalização dos expedientes de consumo do cinema se limita a esse nível superficial.

Essas tecnologias têm a capacidade de alterar completamente o balanço de poder entre a grande mídia e as pessoas comuns.A distribuição de filmes em rede deteriora as janelas de lançamento, acabando com o apelo de exclusividade dos blockbusters. A projeção digital torna a exibição de filmes um negócio ordinário, ao alcance de qualquer um. Um realizador não mais precisa depender do cartel de multiplexes: ele pode programar sua própria estrutura de difusão, conveniente com a sua obra.

Mais do que isso, a projeção digital modifica a essência do dispositivo cinematográfico. O filme passa a ser composto de maneira radicalmente distinta: não se trata mais da projeção de registros indiciais, mas da efetiva criação de som-imagem a partir de um código arbitrário, por meio de processamento algorítmico em tempo real.

Conforme a tela de cinema passa a ser interativa, a exibição do filme deixa de ser playback (reprodução) e se torna rendering (interpretação).Somente pela atuação concomitante do dispositivo é que o código pode ser traduzido em mapa de bits, frame, história. Nesse processo, se torna suscetível a outras contaminações.

A projeção digital é, logo, uma interface opaca – o contrário de tudo que a sala de cinema foi programada para ser. Seu funcionamento aponta para o instante da própria exibição, esse tempo que a anti-arquitetura do multiplex busca suprimir. Por isso, também favorece a experiência do espaço real. Digitalizada, a sala de cinema ganha medidas, volume, distância. Quem sabe não assuma a disposição de outros espaços de novas mídias, e se torne navegável?

(…)

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