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“Eu sou um cine-olho. Eu sou um construtor.
Eu te coloquei num espaço extraordinário
que não existia até este momento.
Nesse espaço tem doze paredes
que eu registrei em diversas partes do mundo.
Justapondo a visão dessas paredes e alguns detalhes
consegui dispô-las numa ordem que te agrada e edifiquei,
da forma adequada, sobre os intervalos,
uma cine-frase que é, justamente, esse espaço.

Eu, cine-olho, crio um homem muito mais perfeito
que aquele que criou Adão, crio milhares de homens
diferentes segundo desenhos distintos
e esquemas pré-estabelecidos.

Eu sou o cine-olho.

Tomo os braços de um, mais fortes e hábeis,
tomo as pernas de outro, melhor construídas e mais velozes,
a cabeça de um terceiro, mais bonita e expressiva e,
pela montagem, crio um homem novo, um homem perfeito.”

Dziga Vertov

 

 

Epistemologia engajada de um pioneiro meta-cinema em ritmo de utopia político-social. Dziga Vertov (1896-1954) mostra a preparação, a produção, a filmagem, a revelação, a montagem e até a projeção do filme (dentro do seu filme) na tela (dentro da tela) do cinema, configurando um cinema reflexivo e ensaístico.

O câmera (Mikhail Kaufman, irmão do diretor) põe em ação o “kino-glaz” (cine-olho) e sai à cata da “vida de improviso”. As imagens flagradas por sua câmera identificam-se com as deflagradas pela montagem do filme a que estamos assistindo, ao mesmo tempo, na linha geral on line.

Tomando o cinema como “a decifração comunista da realidade”, Vertov esbanja exuberância formal: vale-se de sobreposições e fusões de imagens, tomadas de câmera em angulações insólitas, metáforas sinestésicas, cortes ousados. Para Annette Michelson, “Vertov mapearia uma mudança de articulação: de uma visão de mundo dialética para a exploração do terreno da própria consciência”, abandonando o didático pelo maiêutico e fazendo “uma teoria do cinema como investigação epistemológica”.

O filme do vórtice Vertov foi o sumo paradigma do metacinema estruturalista e anti-ilusionista (não só para o grupo de Godard), pedra de toque da crítica dos anos 60 e 70 que elegeu a desconstrução como tábula rasa e tábua de salvação.

Docblog

 

 

 

 

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