Grav no dia mundial da animação

Para celebrar o Dia Mundial da Animação o Grav programou uma sessão especial para a Mostra Relâmpago dessa quarta (29/11). Em cartaz, de Richard Linklater, O Homem Duplo. Não deixe de conferir.

homem duplo copy

Arquivos e remix

Nessa sexta-feira, dia 23, a Mostravídeo encerra sua programação de outubro no Cine Metrópolis, em Vitória, com a presença da curadora, Ivana Bentes, que participa de um debate com o público. Nessa semana, a mostra começa às 19h, e serão exibidos os programas 3 e 4, com os filmes Dial H-I-S-T-O-R-Y, do belga Johan Grimonprez; Cinema Espelho do Mundo – Episódio 1, do austríaco Gustav Deutsch, e Queria te Ter Só por Uma Hora, da italiana Alina Marazzi. Ivana Bentes vai  falar sobre a cultura da remixagem no audiovisual, a qual norteia a sua linha curatorial para a seleção de filmes em que as imagens são zapeadas, recicladas, remixadas e transformadas e se tornam os personagens das obras.

Em novembro a Mostravídeo continua, com curadoria de Laura Loguercio Cánepa e Gelson Santana. A programação é gratuita!

Confira a programação:

Programa 3 – Imagens-choque

Uma sinfonia exuberante e impactante de imagens capaz de gerar um pensamento ou nos imobilizar.

Dial H-I-S-T-O-R-Y
Johan Grimonprez, Bélgica, 1998, 68 min
Neste documentário/colagem sobre a cultura da catástrofe (em especial notícias de sequestro de aviões), as imagens da história e a história das imagens são mostradas numa sequência delirante de fotografias, vídeos, programas de TV, cenas de filme de ficção científica etc. Um documentário que antecipa o 11 de setembro? Exibido na Documenta de Kassel – uma das mais importantes mostras internacionais de arte contemporânea –, traz trechos dos romances Mao II e White Noise, de Don DeLillo.

Programa 4 – Arquivos e remix

Os filmes found footage (realizados com imagens que não foram captadas pelo cineasta) têm ganhado uma dimensão singular na cultura das imagens contemporâneas em que o cinema, os arquivos históricos e os bancos de dados digitais se tornam acessíveis e constituem uma memória-mundo coletiva – que pode ser remixada, lincada, desconstruída, recontextualizada. As obras deste programa refletem esse “cinema-mundo” das ruas, da vida pública e da vida privada, seja em cenas do início do século XX seja em registros domésticos contemporâneos, em que uma “segunda vida” nos é dada pelas imagens.

Cinema Espelho do Mundo – Episódio 1
Gustav Deutsch, Áustria, 2005, 30 min
Um filme-ensaio realizado com base em imagens documentais dos primórdios do cinema em que são mostradas salas de exibição históricas e seu entorno – que inclui a vida cotidiana nas ruas e a reação dos pedestres diante da câmera.

Queria te Ter Só por Uma Hora
Alina Marazzi, Itália, 2002, 55 min
Marazzi reconstitui – por meio de imagens gravadas pelo seu avô – a vida de sua mãe, que cometeu suicídio em 1972. “Ao longo da minha vida”, comenta a diretora, “o nome da minha mãe foi ignorado, escondido. O seu rosto também. Porém, tenho a sorte de vê-la se mexer, rir, correr… Até de vê-la no seu primeiro dia de vida! Vê-la crescer, aprender a andar, casar-se, me levar para passear de barco!”. A obra foi premiada na edição de 2002 do Festival de Locarno.

Histórias/ficções

Nessa sexta, 09 de outubro, exibimos o segundo programa da curadoria de Ivana Bentes, que escolheu como tema “A vida das imagens”.

O programa Histórias/ficções apresenta os filmes Happy End, do austríaco Peter Tscherkassky, e Double Take, de Johan Grimonprez. As obras manipulam imagens (que vão desde materiais de arquivo ligados aos acontecimentos da Guerra Fria até cenas da publicidade e do noticiário contemporâneos) para construir ficções criveis ou um registro delirante do cotidiano.

É na sexta, dia 09, às 21h no Cine Metrópolis – UFES. A entrada é franca!

Happy End
Peter Tscherkassky, Áustria, 1996, 11 min
Found footage (obra realizada com imagens que não foram captadas pelo cineasta) que reúne registros de rituais cotidianos de um casal – com os quais Tscherkassky transforma a banalidade do dia a dia em cenas carregadas de mistério.

Double Take
Johan Grimonprez, Alemanha/Bélgica, 2009, 80 min
“Se você encontrar o seu duplo, deve matá-lo!”, diz Alfred Hitchcock. Esse é o ponto de partida do filme, que apresenta o famoso cineasta como um paranoico professor de história. Combinando imagens retiradas do noticiário voltado à Guerra Fria e dos programas de televisão apresentados por Hitchcock nos anos 1960 – bem como de alguns de seus longas-metragens, como Intriga Internacional (1959), Psicose (1960), Os Pássaros (1963) e Topázio (1969) –, Grimonprez cria uma narrativa que atravessa todos os gêneros.

Resenha de “A hipótese do quadro Roubado” por Carolina Ruas

O segundo Sessão Grav do chileno Raoul Ruiz exibiu dois filmes do diretor.

O primeiro foi o curta-metragem Colóquio dos Cães, de 1977. Logo depois teve a exibição do longa-metragem A hipótese do quadro roubado, produzido dois anos depois, que teve a resenha escrita por Carolina Ruas.

O escândalo familiar de um dos quadros analisados no filme

O roubo da consciência

Em uma rua inexpressiva, provavelmente um subúrbio francês, se ergue uma mansão enevoada ao som de uma ópera cantada com a dramaticidade necessária para nos introduzir a um clima de suspense e a nos fazer esperar os contornos de uma grande tragédia. A tragédia, Raoul Ruiz faz questão de anunciar em versos de Victo Hugo: “a consciência humana está morta”.

É assim que o diretor chileno introduz A hipótese do quadro roubado. Dentro da mansão, Ruiz vai levar o espectador a um ambiente tão enevoado quanto os arredores da mansão.  O colecionador se movimenta na sua mansão inexpressiva apresentando ao espectador uma série de quadros de um pintor impressionista, tentando desenhar um fio condutor que narra um escândalo, escondido pelas telas.

Seis obras – sete, não fosse a falta de uma – completam um ciclo de elementos que escondem a polêmica.  A princípio parece o desenrolar de um grande mistério, um thriller existencial, um caso de roubo, uma seita secreta. Entretanto, não é a toa que Ruiz, aparentemente, deixa as pontas soltas e nos faz duvidar de tudo que é dito.  A mansão, os quadros, a ópera, a neblina, todos os elementos estão dispostos de uma forma que exalam uma sensação de entorpecimento, como se o colecionador estivesse em um limbo artístico e, cinematográfico.

Uma das pinturas que cercam o mistério no filme

Uma das pinturas que cercam o mistério no filme

A hipótese do quadro roubado, mais que tudo, nos leva às fronteiras do cinema. Primeiro nos deixa aos cuidados de um narrador, que propõe anedotas artísticas e filosóficas e nos conduz a experiência do personagem-colecionador, que orienta seu aprendiz invisível – o espectador – suas análises e angústias acerca das obras. Por vezes, a fala de ambos se encontra e, por vezes, o colecionador parece ainda mais sozinho, e mais mergulhado em suas próprias reflexões.

Conforme o colecionador desenvolve sua teoria, os personagens se movimentam e reencenam a série de quadros que podem ter um significado maior; Os tableux-vivant estão espalhados por toda a casa, como bonecos de cera a teatralizar os resquícios de algum mistério que o artista inscreveu nas obras. Ou ainda, podem estar simplesmente servindo à crença do seu locutor, redesenhando todas as cenas em um jogo de interpretação.

Os quadros, entretanto, não são o foco principal de Ruiz. E isso vem à tona no momento em que se observa um filme que se diz sobre a pintura, roubar a sua maior característica: a cor. Em preto e branco, Ruiz sugere ao espectador embarcar em um jogo de percepção que ele arrisca fazer e desfazer dentro da narrativa cinematográfica. Levando o espectador a um estado intermediário entre a realidade e a fantasia – ou ao devaneio, alguns diriam – ele apresenta um filme duvidoso, um cinema onde bases sólidas não existem. O que existe é a consciência.

FICHA TÉCNICA

A hipótese do quadro roubado (Drama, 63min, França, 1979)

Título original: L’Hypothèse du tableau volé

Direção: Raoul Ruiz

Roteiro: Raoul Ruiz e Pierre Klossowski

Elenco: Jean Rougeul (colecionador)

A vida das imagens

Gui Athayde, Belo Horizonte (MG) - Ilustração de outubro

Gui Athayde, Belo Horizonte (MG) - Ilustração de outubro

Nessa sexta-feira, dia 02, começa a programação de outubro na Mostravídeo. Confira o texto de Ivana Bentes, curadora do mês:

Ao longo da história do cinema e do vídeo, as imagens ganharam cada vez mais autonomia, extrapolaram o campo da representação e, por fim, se tornaram sujeitos, personagens. “Forma que pensa”, que afeta e é afetada, a imagem está carregada, entre outras coisas, de todas as qualidades e potencialidades dos seres vivos.

Esta edição de outubro da Mostravídeo aponta para a imagem experimentada como sujeito. Os filmes e vídeos escolhidos – de diferentes épocas, períodos e autores – dão visibilidade às imagens integradas ao território urbano e investidas de afeto, corpo, pensamento.

As obras aqui presentes refletem esse “cinema-mundo” das ruas, da vida pública e privada. Cinema-mundo que se tornou a nossa própria vida.

Ivana Bentes
curadora

Ivana Bentes é doutora em comunicação, pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), curadora de cinema, arte e tecnologia e organizadora dos livros Ecos do Cinema – de Lumiere ao Digital (UFRJ, 2008) e Corpos Virtuais – Arte e Tecnologia (Oi Futuro, 2006). Atua no campo do audiovisual, da cultura digital, da comunicação e das novas mídias.

Programação:

Dia 2 de outubro, sexta-feira, 21h

Strata #1

Quayola, Inglaterra, 2008, 1min35s

O vídeo abole a distância entre os séculos e reinventa a era barroca.

Copérnico I: Paisagem com Figura

Daniel Augusto e Eduardo Climachauska, Brasil, 2005, 7 min

Ao longe, uma mulher anda de bicicleta. Suas pedaladas movem um círculo, equipado com uma câmera em seu centro e outra na borda de sua circunferência. Três câmeras revelam diferentes pontos de vista sobre a mesma ação.

Energia!

Thorsten Fleisch, Alemanha, 2007, 5min20s

Descargas estroboscópicas em alta tensão.

Wingbeats

Thomas Newton, País de Gales, 2006, 14min50s

Movimentos de voos são transformados em impulsos sonoros e musicais.

Iluminai os Terreiros

Eduardo Climachauska, Gustavo Moura e Nuno Ramos, Brasil, 2006, 43min30s

Uma equipe projeta círculos de luz em cinco locais diferentes e os observa durante a noite, registrando as transformações e os acontecimentos ocasionados pelo trabalho.

Hamlet no Porto

Arthur Omar, Brasil, 2004, 7min30s

Uma multidão de personagens se espalha por diferentes palcos interligados por escadas. O tempo se acelera e todas as paixões humanas são vistas em um só lugar, num intervalo de poucos minutos.

Passagem ao Ato (Passage à l’Acte)

Martin Arnold, Áustria, 1993, 12 min

O diretor desconstrói um pequeno fragmento do filme O Sol é para Todos (1962), de Robert Mulligan, transformando o típico café da manhã de uma família norte-americana em uma cena desconcertante e esquizoide.

Dia 9 de outubro, sexta-feira, 21h

Happy End

Peter Tscherkassky, Áustria, 1996, 11 min

Found footage (obra realizada com imagens que não foram captadas pelo cineasta) que reúne registros de rituais cotidianos de um casal –

com os quais Tscherkassky transforma a banalidade do dia a dia em cenas carregadas de mistério.

Double Take

Johan Grimonprez, Alemanha/Bélgica, 2009, 80 min

“Se você encontrar o seu duplo, deve matá-lo!”, diz Alfred Hitchcock. Esse é o ponto de partida do filme, que apresenta o famoso cineasta como um paranóico professor de história. Combinando imagens retiradas do noticiário voltado à Guerra Fria e dos programas de televisão apresentados por Hitchcock nos anos 1960 – bem como de alguns de seus longas-metragens, como Intriga Internacional (1959), Psicose (1960), Os Pássaros (1963) e Topázio (1969) –, Grimonprez cria uma narrativa que atravessa todos os gêneros.

Dia 23 de outubro, sexta-feira, 19h, palestra com a curadora Ivana Bentes

Dial H-I-S-T-O-R-Y

Johan Grimonprez, Bélgica, 1998, 68 min

Neste documentário/colagem sobre a cultura da catástrofe (em especial notícias de sequestro de aviões), as imagens da história e a história das imagens são mostradas numa sequência delirante de fotografias, vídeos, programas de TV, cenas de filme de ficção científica etc. Um documentário que antecipa o 11 de setembro? Exibido na Documenta de Kassel – uma das mais importantes mostras internacionais de arte contemporânea –, traz trechos dos romances Mao II e White Noise, de Don DeLillo.

Cinema Espelho do Mundo – Episódio 1

Gustav Deutsch, Áustria, 2005, 30 min

Um filme-ensaio realizado com base em imagens documentais dos primórdios do cinema em que são mostradas salas de exibição históricas e seu entorno – que inclui a vida cotidiana nas ruas e a reação dos pedestres diante da câmera.

Queria te Ter Só por Uma Hora

Alina Marazzi, Itália, 2002, 55 min

Marazzi reconstitui – por meio de imagens gravadas pelo seu avô – a vida de sua mãe, que cometeu suicídio em 1972. “Ao longo da minha vida”, comenta a diretora, “o nome da minha mãe foi ignorado, escondido. O seu rosto também. Porém, tenho a sorte de vê-la se mexer, rir, correr… Até de vê-la no seu primeiro dia de vida! Vê-la crescer, aprender a andar, casar-se, me levar para passear de barco!”. A obra foi premiada na edição de 2002 do Festival de Locarno.

Sempre às sextas-feiras, com entrada franca!

Cine Metrópolis
Av. Fernando Ferrari, s/n
Goiabeiras, CEP 29060-410
Telefones 27 3335.2376
www.secretariadecultura.ufes.br

Grav na sessão de Lanchonete Olympia

Olá pessoas!

Na próxima segunda-feira (28) não haverá reunião do Grav, como de costume. Para compensar, na terça-feira, o Grav vai ao Cine Jardins para assistir a primeira sessão mobilizada pelo site MovieMobz.

O filme mobilizado é Lanchonete Olympia, de Steve Barron.

Pra quem não conhece, o MovieMobz é uma espécie de Orkut para cinéfilos que, desde o início do ano passado em São Paulo e Rio de Janeiro, reúne pessoas interessadas em ver determinados filmes na tela grande. Uma vez dentro da rede social, os membros se organizam para mobilizar sessões em cinemas credenciados da sua cidade. Aliás, o Grav tem uma comunidade de membros no Moviemobz!

Quanto mais pessoas afim de ver o mesmo filme, maior a chance de ser marcado a sessão em um cinema próximo, em um preço relativo ao número de mobilizados.

Assim filmes antigos que já saíram de cartaz ou filmes novos desinteressantes para o circuito comercial das salas de cinema tem a oportunidade de serem exibidos na telona.

Primeira sessão mobilizada do MovieMobz

Primeira sessão mobilizada do MovieMobz

Lanchonete Olympia é um desses filmes que passaram longe de Vitória. O filme é uma produção independente americana e revela uma lanchonete freqüentada por estrangeiros nos subúrbios de Nova York. Lá trabalha Jorge, um lavador de pratos equatoriano que se apaixona por uma garçonete chinesa. Observando o mundo de dentro da lanchonete, o filme mostra uma paranóica cidade americana habitada por estrangeiros. Lanchonete Olympia é o primeiro longa-metragem autoral de Steve Barron, experiente na realização de videoclipes de artistas como David Bowie, Michael Jackson e Dire Straits.

Olha o trailer!

Quero ver todo mundo lá no Cine Jardins! =)

Lanchonete Olympia

Terça-feira, 21h.

O endereço: Rua Carlos Eduardo Monteiro de Lemos, 262, Jardim da Penha.

Game Over

Nessa sexta, 25, apresentamos o último programa da Mostravídeo de setembro. A curadora Isabelle Arvers encerra sua seleção com 15 curtas (quase todos bem curtos mesmo!) das Machinimas. É no Cine Metrópolis, às 21h, com entrada franca.

Confira a programação aqui!

E na primeira sexta de outubro, dia 02, começamos a programação da “vida das imagens”, com curadoria de Ivana Bentes, que participa de um debate aqui em Vitória no dia 23 de outubro. Não percam!

Resenha de “Crônica da Inocência” por Alexandre Curtiss

As crianças são tudo menos inocentes

As crianças são tudo menos inocentes

O sorteio das melequinhas este mês escolheu o diretor chileno Raoul Ruiz.

O primeiro filme exibido em Sessão Grav foi Crônica da Inocência.

E foi o nosso digníssimo professor orientador Alexandre Curtiss o escolhido para escrever a crítica da semana.


O ORDINÁRIO SURREAL

Para assistir Crônica da Inocência o espectador deve estar preparado para uma desconcertante experiência cinematográfica. O cinema tardio de Raoul Ruiz – diretor com mais de 100 trabalhos para cinema e televisão – faz do rigor e da precisão expressiva instrumentos narrativos privilegiados. Por trajetos aparentemente “clássicos”, se ocupa de fabricar complexas histórias que desafiam lógicas e normalidades. Disso resulta um cinema de “sabor” raro.

Crônica da Inocência tem muitos níveis narrativos e se presta a variadas experiências de espectatorialidade. Parece não trabalhar com a possibilidade da indiferença. Desafia de modo ambíguo, e até exasperante, convenções e expectativas. É cinema em pleno domínio de seus poderes, e ciente minucioso disso.

A história poderia ter uma resenha banal. Camille, ao fazer 9 anos, começa a ter comportamento estranho. Passa a tratar a mãe, Ariane, como estranha e demonstra pertencer a outra realidade, outra família. É o início de um suspense onde não havia indícios, de reviravoltas que percebem claramente o momento de acomodação dos espectadores. Um filme que combate expectativas.

Raoul Ruiz usa diversos recursos da tradição cinematográfica para exibir os delírios de Camille. Porém os carrega de ambiguidade. Então, de repente, eles deixam de ser simplesmente fantasias e ganham concretude. Mesmo assim, distintas do que aparentam ser.

Na mesma sintonia, a representação “realista”, “clássica”, da história passa por uma revisão que a subverte, mantendo seus próprios e tradicionais parâmetros. Ao trabalhar assim, Raoul Ruiz parece buscar uma síntese que é o sonho de boa parte dos artistas mais instigantes: estabelecer diálogo tanto com o espectador, quanto com o cinema – “intertextualmente” -, sem perder o rigor, o compromisso com a produção de uma provocação difícil de esquecer e de absorver. Pura potência.

Crônica da Inocência não é um filme óbvio. Baseado em obra literária, mais parece uma retomada do projeto surrealista – um Buñuel no suspense -, mas sem repeti-lo, ou a ele se render oportunisticamente. E ainda por cima “o trai”, num desfecho ordinário em sua genialidade. Humano, demasiado humano. Um marco.

FICHA TÉCNICA

Crônica da Inocência (Drama, 95min, França, 2000)

Título original: Comédie de l’ Innocence

Direção: Raoul Ruiz

Roteiro: Françoise Dumas e Raoul Ruiz. Adaptado de “Il figlio di due madri” – de Massimo Bontempelli.

Elenco: Isabelle Huppert (Ariane); Jeanne Balibar (Isabella); Nils Hugon (Camille); Charles Berling (Serge).

Raoul Ruiz

Hoje a noite tem Sessão Grav!

Agora, é a vez do diretor e roteirista chileno Raoul Ruiz.

Será exibido hoje o longa “Crônica da Inocência”, às 19h, no cemuni V. A entrada é franca!

Raoul Ruiz

Sua obra é marcada pelo experimentalismo e variedade de gêneros. Em “Crônica da Inocência”, Ruiz não permite que nos orientemos diante do que é mostrado. O filme conta a história de Camille, um garoto que acaba de completar nove anos. Ele resolve mostrar para sua mãe alguns vídeos que fez em casa, e diz que quer voltar para sua `verdadeira mãe´.  Sem saber o que se passa, sua mãe vai ao endereço que o filho indica e descobre que lá mora uma violonista, cujo filho falecido também completaria nove anos.

Ruiz escrevia peças de teatro na adolescencia, estudou Teologia, Direito e Documentário Social. Trabalhou reescrevendo seriados para a tv mexicana e chilena, e entrou no cinema por meio de cineclubes universitários. Fundou uma produtora em 68, e  após ligar-se ao socialismo produziu vários documentários políticos. Por sua ligação com Allende, foi exilado na França depois do golpe de 73.

Vale lembrar que o primeiro diretor do semestre foi Karim Aïnouz, e foram exibidos dois longas do diretor: Madame Satã e O Céu de Suely.

Resenha de “O Céu de Suely” por Rafael Abreu

O segundo filme do diretor do mês Karim Aïnouz, O céu de Suely, teve resenha crítica escrita por Rafael Abreu.

“O céu de Suely” é um filme que tem pouco enredo, a princípio: Hermila, recém-saída de São Paulo, retorna a Iguatu, cidadezinha pobre e pacata do nordeste, onde reencontra as pessoas e a rotina que deixou para trás por paixão a Mateus, pai de seu filho. Mas essa falta de enredo aparente faz sentido, considerando que é na simplicidade e nos personagens que o diretor encontra o clima e o ouro do longa.

Perdida entre o ritmo vagaroso e familiar de Iguatu e a espera por Mateus, o que se vê em Hermila e o ambiente que a envolve é deslocamento. Não só como qualidade da personagem, mas como sua atividade. O movimento que Hermila faz, mesmo que mínimo, é de fuga. Capturada nos planos abertos em que o céu (que não é seu) toma a maior parte do quadro, a imagem da personagem encolhida num canto, tem-se a impressão de uma claustrofobia às avessas: o céu, como o próprio diretor comentou, quanto a esse aspecto, toma a forma de um descampado que tanto liberta quando intimida.

Mas não é só na sensibilidade Hermila que o filme se sustenta. Há o sertão destacado da tradição árida e sofrida, menos deserto, mais urbano e globalizado, há o elenco matriarcal de que fazem parte sua tia, sua vó e Georgina (uma “rapariga”) e há João, de fato a única coisa que poderia impedir que Suely surgisse à procura deum céu diferente, mais longe, todos interpretados com bastante delicadeza. Tendo em vista que o roteiro não fornece muita tensão dramática nos diálogos em si, a própria preparação dos atores já se preocupava em ser essencialmente física, focada na linguagem corporal, estabelecendo  uma atuação silenciosa que permeia o filme inteiro.

Quando a protagonista pergunta a uma balconista na rodoviária, qual é a passagem que ela tem pra mais longe, para ir adaptando o lugar ideal ao preço mais baixo da passagem, o tema do filme fica evidente. Longe é Iguatu, longe é São Paulo, longe são as imagens em super 8 que abrem o filme, nostálgicas, saudosas. O foco da narrativa é tanto a distância quanto sua travessia, por mais disfarçadas que sejam.

FICHA TÉCNICA:

O Céu de Suely (Drama, 01h28, Brasil, 2006)

Direção: Karim Aïnouz

Roteiro: Maurício Zacharias, Felipe Bragança e Karim Aïnouz, baseado em argumento de Maurício Zacharias e Karim Aïnouz

Produção: Walter Salles, Maurício Andrade Ramos, Hengameh Panahi, Thomas Habërle e Peter Rommel

Música: Berna Ceppas e Kamal Kassin

Fotografia: Walter Carvalho

Elenco: Hermila Guedes (Hermila); Georgina Castro (Georgina); Maria Menezes (Maria); João Miguel (João); Mateus Alves (Mateuzinho); Zezita Matos (Zezita Marcélia Cartaxo)

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